Enquanto o mundo corporativo se guia por gráficos e projeções, Marco Dalpozzo, um executivo italiano, decidiu seguir uma bússola diferente: a força do vento que esculpe as dunas do litoral nordestino.

Por quase três décadas, Marco viveu o cotidiano do mundo corporativo, uma carreira que o levou da Unilever à Vale do Rio Doce, da L’Oréal à CBF - Confederação Brasileira de Futebol. Em cada um desses escritórios, o eco do mar e o sopro do vento eram como uma promessa distante, uma paixão antiga que o aguardava. A virada de chave começou em 1994, quando suas primeiras férias no Brasil se transformaram em uma expedição de 6 mil quilômetros, de carro, em busca do vento perfeito. Foi uma aventura com mapas da revista Quatro Rodas no colo, pranchas no teto e a certeza crescente de que o Nordeste guardava algo único. Um ano depois, sua companheira de vida, Morgana, reacendeu a chama ao falar de um lugar mítico que conhecera em 1982: Jericoacoara, vilarejo onde só se chegava com muita dificuldade na época. A chegada revelou um lugar que ele jamais esqueceria.
Foi nesse momento de revelação que o executivo se transformou. Em vez de retornar à rotina, Marco decidiu permanecer. “Quando cheguei, as aldeias tinham apenas o luar e as lâmpadas de querosene. Parecia algo fora deste mundo”, diz.

Junto com Morgana, comprou um terreno à beira-mar, considerado inviável pelos locais, e, em 1999, abriu a Vila Kalango. O plano era claro: não imitar o hotel urbano, mas refletir a cultura e o respeito pelo lugar. Os 59 coqueiros que haviam no terreno foram tratados como guardiões e estão lá até hoje, todos, em uma promessa que Marco mantém viva.
A arquitetura seguiu essa mesma filosofia, usando palha, madeira e técnicas locais para criar chalés que respiram com o vento, uma extensão da paisagem. A comunidade se tornou a bússola para a vida e o trabalho, um convite para que os moradores co-criassem o espaço. Para Marco, essa força coletiva é o que distingue Jericoacoara do Preá, onde, em 2005, fundou o Rancho do Peixe.
Onde o Vento e a Natureza se Encontram

O Rancho do Peixe nasceu de um sonho e uma paixão. Marco, um velejador nato, viajou o litoral nordestino em busca da “meca do kitesurf” e encontrou no Preá o vento perfeito, constante, que move o esporte e a vida na região. Distante cerca de 10km de Jericoacoara, o Rancho oferece a tranquilidade de um refúgio com a conveniência de estar próximo a um dos destinos mais vibrantes do país.
Situado em uma área de mais de 60 mil metros quadrados, o Rancho é a materialização de uma filosofia eco consciente. Apenas 14% do terreno é ocupado por construções. Os bangalôs de 80 m² são feitos com materiais locais e projetados para que o vento circule naturalmente, dispensando o ar-condicionado e reduzindo o consumo de energia. As redes nas varandas convidam à contemplação e ao relaxamento, criando um refúgio perfeito para quem busca se conectar completamente com a natureza.
Para Marco, o litoral brasileiro é um dos maiores ativos econômicos do país. Mas, como qualquer ativo, pode ser mal administrado. Ele defende que a sustentabilidade, que custa, vale mais a longo prazo que a busca por lucro rápido. “Prefiro ter 8% de retorno ao ano e deixar o lugar de pé para meus filhos do que buscar 25% e destruí-lo em três anos.” É essa visão que orienta o Rancho, que gera 120 empregos, sendo 90% ocupados por nativos, e compra produtos exclusivamente de fornecedores locais, reforçando a economia circular da região.
Os hóspedes que querem um dia agitado, com música dançante e praia cheia, podem pegar um transfer da pousada rumo à Vila Kalango. Dessa forma, é possível ter o melhor dos dois mundos: a tranquilidade e o contato com a natureza no Rancho, e o agito e as facilidades de Jeri.
O Rancho do Peixe prova que o conforto anda de mãos dadas com a sustentabilidade, e sua filosofia, que trata “cada árvore como um parente”, valeu à acomodação reconhecimentos como o TripAdvisor Travellers’ Choice e o Condé Nast Johansens, na categoria “Melhor Experiência Imersiva”, em 2021.
Desenvolvimento com freio
Para Marco, o vento é mais que um elemento da natureza; é uma forma de encontrar a si mesmo. Foi ele que o guiou para a “Terra do Vento”, como ele se refere poeticamente ao litoral nordestino, onde se encontra uma hospitalidade rara. Em paralelo aos empreendimentos em terra, Dalpozzo transformou a paixão pelo vento em caminho com o Surfin Sem Fim. O projeto, que explora cerca de 1.800 km do litoral nordestino, é uma travessia épica que utiliza o kitesurfing para desbravar o Brasil.
As rotas unem cinco estados brasileiros e revelam comunidades costeiras, natureza exuberante e uma experiência transformadora. São expedições de vários dias, cuidadosamente estruturadas com logística em terra, pousadas parceiras e guias experientes. Mais que esporte, o Surfin Sem Fim é um encontro de pessoas com filosofias semelhantes, que encontram no vento e na água um lugar em comum para partilhar sonhos e aventuras. É um “Caminho de Santiago” tropical.
Nas palavras de Marco, deslizar pela Terra do Vento é uma sensação indescritível, pois “qualquer adjetivo é pequeno para traduzir o que significa.” E para ele, os guardiões dessa terra encantadora são os nativos.
Dalpozzo construiu não apenas um empreendimento, mas um ecossistema de respeito e paixão. Sua história nos lembra que o vento, que antes era apenas uma brisa na janela de um escritório, pode ser a força que nos leva a encontrar nosso verdadeiro lugar no mundo. E essa é a beleza que a Bon Voyage faz questão de mostrar: a jornada de quem ousa seguir o que o coração pede.
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Como Chegar
De ônibus
Saindo da rodoviária de fortaleza, empresas como a guanabara oferecem linhas até jijoca de jericoacoara, de onde se pega um transfer 4x4 até o destino final. o trajeto dura cerca de 5 horas.
De carro
Distante cerca de 280 km de Fortaleza, a viagem leva cerca de 4 horas até a entrada do parque nacional de Jericoacoara.
