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Entrevistas

Retratos da vida real

O fotógrafo Ciro Saboya, especialista em fotografia documental, revela porque prefere a intuição à precisão técnica e como busca repertório no silêncio.
Tempo de leitura: 10 minutos.

O fotógrafo Ciro Saboya tem um olhar especial para o que a maioria deixa passar. Para ele, o grande segredo está em transformar o caos da rotina e o cotidiano sem roteiro em poesia. Com a cidade como seu estúdio favorito, Saboya conversou com a Bon Voyage sobre a busca pelo “instante decisivo” nas ruas. Batemos um papo sobre a força da intuição na hora do clique, como a paternidade mudou a sua lente e por que a fotografia feita por mãos humanas continuará sendo insubstituível.

 

O que te fascina no cotidiano como tema fotográfico?


O que me encanta é a vida acontecendo sem roteiro. As pessoas indo e vindo, os gestos pequenos, o riso que escapa, o silêncio que diz mais do que mil palavras. Acho bonito esse caos que a gente chama de rotina. É isso que eu tento capturar: a beleza que ninguém viu porque estava com pressa.
 

Quais fotógrafos marcaram teu olhar e tua trajetória?


Tem muita gente que me inspira. Cartier-Bresson sempre me ensinou que o instante decisivo está por toda parte. Sebastião Salgado me mostrou a força da dignidade humana em cada imagem. Mas também olho muito para nomes menos conhecidos, gente que fotografa a própria rua com delicadeza. Aprendo todos os dias com quem fotografa com o coração, não com a vaidade.

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Além da fotografia, onde você busca repertório criativo?


Na conversa com as pessoas. No cinema antigo. Em discos de vinil que ouço sem pressa. Às vezes é um poema lido de madrugada que acende uma ideia. Outras vezes é um senhor sentado num banco de praça. Tudo pode ser faísca — o segredo é estar presente e deixar o mundo te atravessar.
 

Como você enxerga o espaço urbano no teu processo criativo?


A cidade é o meu estúdio preferido. Ela muda de humor conforme a hora, a luz, o clima. Gosto de andar sem destino, deixando que as ruas decidam a foto. Tenho uma relação forte com as esquinas — nelas tudo acontece: encontros, despedidas, esperas. É onde a vida se mostra sem pedir licença.
 

Na tua rotina, o que fala mais alto: a precisão técnica ou a intuição do instante?


A intuição, sempre. Técnica é ferramenta, mas não é fim. Prefiro uma foto torta que tenha alma a uma perfeita que não diga nada. O que me move é a emoção do momento, aquele segundo em que tudo se alinha e você simplesmente sente: “é agora”.

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Como a experiência de ser pai transformou a tua forma de fotografar e de olhar o mundo?


Ser pai mudou tudo. Antes eu fotografava o que via. Agora fotografo também o que sinto. Meu filho me ensinou a desacelerar, a reparar nos detalhes, a enxergar o extraordinário no simples. Muitas vezes ele aparece nas minhas fotos sem saber — às vezes nem é ele na imagem, mas é o olhar dele em mim que está ali.
 

Num mundo invadido por imagens artificiais, qual é o papel da fotografia feita por mãos humanas?

A IA pode até imitar a forma, mas não alcança a intenção. Fotografia humana é imperfeita, e é aí que mora sua beleza. Cada clique carrega história, afeto, memória. Não dá pra programar isso. Acredito que a fotografia feita por gente continuará necessária porque ela fala de nós — e o humano ainda é o que temos de mais insubstituível.
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