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Patrimônios da Minha Terra

O CEARÁ TECIDO À MÃO

Um retrato sensível do artesanato cearense, onde rendas, palhas e fios revelam histórias de mulheres que transformam tradição em identidade, sustento e futuro.
Por Fábio Campos
​A editoria Patrimônios da Minha Terra nasce da ideia de que cada lugar guarda um mundo inteiro dentro de si. É a frase “canta tua aldeia e cantarás o mundo”, atribuída a Liev Tolstói, que inspira o coração da iniciativa: revelar a grandeza que existe nas histórias locais.

Percorremos comunidades, vilas, bairros e cidades para reconhecer seus verdadeiros tesouros: mestres da cultura, festas que unem gerações, paisagens que moldam pertencimentos, receitas e artes que mantêm viva a memória de um povo. Mostrar o Brasil que se revela no cotidiano das pessoas e nas tradições populares que resistem. 

Cada edição do projeto é um convite a viajar atentamente ao que é verdadeiro, autêntico e extraordinário nas histórias dessas pessoas que tecem artes e levam ao mundo seus trabalhos artísticos. Patrimônios da Minha Terra celebra quem somos e o que jamais deixamos de ser.

Este projeto é patrocinado pela Assembleia Legislativa do Estado do Ceará,  Expresso Guanabara e Grupo Marquise. 
 
ALECE
Patrimônios da Minha Terra
Grupo Marquise

​O Ceará é uma terra que projeta talentos para muito além de suas fronteiras.  Poucos ofícios representam isso tão bem quanto as rendas. São milhares de artesãs espalhadas pelo Estado, tecendo beleza e identidade que atravessam o Brasil e chegam ao mundo.

Em Trairi, mais de 5 mil artesãs trabalham com renda, fazendo do município um dos com maior número de rendeiras do Estado. Como já destacou em uma fala pública sobre a tradição do bilro em sua comunidade, Mestra Raimundinha afirma:
 

“Trairi é terra de sol, praia e vento, não vamos deixar morrer a cultura da renda com o tempo”.

 

Foto: Divulgação

Rotas Ceart / Divulgação

Em Aquiraz, no Ceará, antes que o sol doure as telhas, já tem mulheres ajeitando a almofada de bilro na porta de casa, soprando o pó da mesa, puxando o fio como quem chama a memória de volta. 

A renda de Bilro, por exemplo, não começa no bilro. Começa na observação e na herança. Em Aquiraz, como já descreveu Maria Cleide dos Santos, presidente da Associação das Rendeiras da Prainha, em um relato publicado:
 

“Renda é cultura que você faz com gosto, com amor. Às vezes, doem as costas do movimento, mas é uma terapia muito boa. Você esquece de tudo”.
 

 

Rotas Ceart / Divulgação

Ainda menina, Cleide Costa descobriu a renda observando a mãe trabalhar na almofada. O som dos bilros e a delicadeza do desenho que surgia a encantaram cedo, um fascínio que a acompanhou pela vida inteira. Também integrante da Associação de Rendeiras da Prainha, ela participou da criação das peças que compuseram a árvore de Natal exibida pela CeArt em 2023, um trabalho coletivo que reuniu dezenas de rendas em diferentes formatos. Como ela mesma já contou em uma entrevista institucional sobre sua trajetória:
 

“Eu sempre fui uma menina curiosa e a renda foi uma paixão à primeira vista, um caso de amor que dura até hoje e vai ser para sempre”

 diz a rendeira de Aquiraz.


Fotos: Beatriz Souza e Drawlio Joca / Governo do Estado do Ceará
Fotos: Beatriz Souza e Drawlio Joca / Governo do Estado do Ceará
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E há a Renda Labirinto, forte em comunidades como as de Aracati e Fortim. Técnica que exige o gesto de desfazer para criar, de abrir o tecido para que a arte se revele. O trabalho poético da labirinteira, reconhecido como Patrimônio Cultural do Ceará, começa com o ato de desfiar o tecido, transformando o pano bruto em uma tela vazada, antes mesmo de bordar os desenhos. É um processo que inverte a lógica da construção, como bem observado em um estudo sobre a técnica:

"O trabalho poético da labirinteira, a rendeira da tipologia labirinto, começa não no fazer, mas no desfazer. É sobre uma grade que ela abre vazios sobre tecidos planos de linho e algodão, e com os motivos escolhidos, tomam forma desenhos delicadíssimos." Observação sobre a Renda Labirinto, Aracati. Fonte: Documentário "Travessias Artesanais | Labirinto - Filme", Catarina Mina, 2022.

A técnica também movimenta a economia local. Muitas famílias têm no Labirinto uma importante fonte de renda. O processo é cuidadoso e demanda tempo, o que valoriza ainda mais cada peça produzida. Mesmo com a chegada de novas atividades e mudanças no mercado, o saber tradicional continua sendo preservado e repassado entre gerações.

 

Foto: Divulgação


Já a Renda de Filé, presente com força em comunidades do litoral, como Cascavel e Jaguaribe. Uma técnica que nasceu das mãos dos pescadores que remendavam redes e que, com o tempo, ganhou novos significados nas mãos das artesãs. Ali, o gesto de tecer virou sustento, tão fundamental quanto o bilro, e é justamente esse aspecto que tantas artesãs reconhecem em suas trajetórias.

A rendeira Gracilda da Cunha, em entrevista sobre sua trajetória, contou:
 

“Aprendi a fazer renda com a minha mãe e hoje sigo fazendo o trabalho que ela tanto amava. Já trabalhei em outras coisas, mas logo voltei para a renda, que é minha vocação”

relembra Gracilda.



Fotos: Beatriz Souza e Drawlio Joca / Governo do Estado do Ceará


No sertão mais seco, onde o terreno é exigente e cada recurso é cuidadosamente aproveitado, o artesanato encontra na Palha de Carnaúba uma matéria-prima precisa. Em municípios como Itapipoca, Irauçuba e Pentecostes, mulheres colhem, limpam e trançam a fibra da árvore-símbolo do Ceará, transformando-a em cestos e bolsas que guardam mais do que objetos: guardam autonomia e permanência.

E, como já contou em uma fala pública sobre seu ofício, a rendeira Cleide Costa diz:

 

“A renda não é só um trabalho que me traz retorno financeiro, ela é principalmente o meu desestresse. Aqui com a minha almofada eu esqueço de todos os problemas. O barulhinho dos bilros e as linhas e cores que vão criando novos desenhos e formas vão me dando sempre novo ânimo”.


O crochê, presente em tantas localidades do Estado, também segue esse caminho de delicadeza e resistência. Começa pequeno, num nó simples, mas abre destinos inteiros. Para muitas artesãs, o fazer é terapia, é pausa, é reconquista do próprio tempo.

 

Foto: Catarina Mina / Divulgação


Essas técnicas — bilro, filé, palha, crochê, labirinto, marchetaria — partem de materiais distintos, mas compartilham a mesma matéria-prima essencial: o tempo. Tempo como método, como cuidado, como lembrança de que nada que importa nasce depressa.

E é nesse território do tempo que se tece a grande rede de vida e trabalho que atravessa o Ceará. Mulheres — e alguns homens — que encontraram no fio uma forma de futuro. Do litoral ao sertão, rendeiras, crocheteiras e trançadeiras sustentam a continuidade do saber.

Nos últimos anos, iniciativas regionais e coletivas passaram a registrar essa trama como legado vivo. A marca Catarina Mina, por exemplo, uniu design e tradição para devolver autoria às artesãs, incluindo nas peças um QR Code que apresenta quem está por trás de cada criação. É o reconhecimento do processo, do cuidado, da mão que conduz o fio.

 

Foto: Divulgação


A Célula de Impacto Socioambiental Positivo da Catarina Mina vem mapeando, de Fortaleza às comunidades do litoral e do sertão, histórias, desafios e transformações que o artesanato provoca. Os números impressionam: 450 artesãos, 99% mulheres, quase mil pessoas impactadas quando se contam filhos, netos e companheiros. Mas o que move a rede não são os números, são os relatos.

Histórias de autonomia, de renda própria, de retomada da autoestima. De mulheres que passaram a se reconhecer como guardiãs de um saber.

 

Foto: Catarina Mina / Divulgação


Ainda assim, o protagonismo permanece onde sempre esteve: no trabalho das mãos. São elas que cruzam bilros com precisão, trançam palha no sertão, organizam fios, reformam técnicas e mantêm vivo um conhecimento que atravessa gerações.

Preservar o artesanato significa preservar essa cadeia humana. É garantir que meninas continuem aprendendo com suas avós, que vizinhas sigam repassando o ponto e que oficinas permaneçam como espaços de formação, renda e apoio comunitário. É, sobretudo, assegurar que as artesãs continuem tendo autonomia sobre o próprio trabalho e sobre o caminho que constroem.

 

“Nosso encontro com as artesãs percorre um longo caminho - com troca de experiências e conhecimentos - por meio de uma metodologia própria, em uma relação que transcende a produção. Tudo feito de forma colaborativa, entendendo a singularidade de cada grupo e de cada fazer artesanal.”


descreve Rede Artesol sobre o impacto da Catarina Mina.

 
Maria Cleide dos Santos
Maria Cleide dos Santos
Fotos: Beatriz Souza e Drawlio Joca / Governo do Estado do Ceará
Renda de Bilro

Localidade: Prainha, Aquiraz – Litoral Leste

Biografia: Começou aos 7 anos, lidera a Associação de Rendeiras da Prainha e faz do bilro fonte de renda e bem-estar.

Citação: “Renda é cultura que você faz com gosto… é uma terapia muito boa.”

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Inocência Mendes (Dona Nega)
Inocência Mendes (Dona Nega)
Foto: Divulgação
Crochê e trançado de palha de carnaúba

Localidade: Aracatiaçu — Sobral (Interior do Ceará)

Biografia: Começou a trabalhar com a palha de carnaúba e crochê aos 7 anos. Está cadastrada na rede de cerca de 450 artesãos vinculados à Catarina Mina.

Citação: “Foi com o artesanato que criei meus filhos.”

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Mestra Raimundinha (Raimunda Lúcia)
Mestra Raimundinha (Raimunda Lúcia)
Foto: Divulgação
Renda de Bilro

Localidade: Canaã, Trairi – Litoral Oeste

Biografia: Mestra da Cultura, rendeira desde criança, preserva a tradição local e ensina novas gerações na comunidade.

Citação: “Trairi é terra de sol, praia e vento, não vamos deixar morrer a cultura da renda com o tempo.”

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Maria Helena Angelina (Dona Boba)
Maria Helena Angelina (Dona Boba)
Foto: Lia de Paula / Rede Artesol
Palha de Carnaúba

Localidade: Cabreiro, Aracati – Litoral Leste

Biografia: Há mais de 36 anos trabalha com palha de carnaúba e é referência na comunidade, onde incentiva outras mulheres.

Citação: “A palha significa pra mim a minha história.”

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CEART 

A CeArt — Onde o Saber Encontra Caminho

A CeArt, Central de Artesanato do Ceará, é o coração que pulsa tradição e também o sistema que faz essa tradição circular, chegar, permanecer. Num estado onde o fazer nasce nas varandas do litoral, nas manhãs de bilro em Trairi, nas tranças de palha do sertão e no barro quente do Cariri, a CeArt atua como um marketplace público moderno, capaz de transformar saber ancestral em oportunidade econômica real. Ela organiza, certifica, distribui. Conecta quem cria a quem procura. Alinha a delicadeza do gesto artesanal ao ritmo contemporâneo do mercado.

 

Fotos: Beatriz Souza e Drawlio Joca / Governo do Estado do Ceará


Não é apenas uma instituição do Estado: é uma plataforma de acesso. Quando acolhe uma peça, acolhe também o caminho de quem a fez. Examina, valida, garante origem e autenticidade com o Selo CeArt, um passaporte que assegura valor justo, identidade cultural e respeito ao tempo do fazer. 

Hoje, 20.303 artesãos estão cadastrados na CeArt,  uma constelação de mãos que sustentam o patrimônio imaterial do Ceará. Só em 2025, já foram emitidas 1.023 identidades artesanais, documento que dá acesso à isenção de ICMS, participação em feiras, formação continuada e hospedagem na Casa do Artesão Cearense. É o Ceará garantindo que a artesã não caminhe sozinha, que o fazer tradicional encontre escala sem perder a alma.

Nas lojas físicas, o barro do Cariri divide prateleira com o labirinto de Aracati; a palha de Aracatiaçu conversa com o crochê de Russas; o bilro de Aquiraz dialoga com novas linguagens de design. E tudo isso chega ao público não apenas como objeto, mas como história preservada, trabalho valorizado e futuro possível.

Criada em 1979, a CeArt existe para que o artesanato encontre mercado, para que o mercado encontre sentido e para que o Ceará não perca o fio da própria identidade. 
 

SERVIÇO — ONDE ENCONTRAR A CEART

Rede de artesãos
  • 38.961 artesãos cadastrados;
  • 1.023 identidades artesanais emitidas em 2025;
  • Benefícios: isenção de ICMS, capacitações, participação em feiras, rota de comercialização, hospedagem na Casa do Artesão Cearense.
 

Foto: Divulgação / Governo do Estado do Ceará

Lojas físicas
Além da unidade do RioMar Fortaleza, a CeArt mantém pontos de venda em diferentes regiões do Estado — e até fora dele:
 
  • Galeria Mestre Noza – Praça Luiza Távora (Fortaleza)
    Funcionamento: segunda a sábado, das 8h às 19h.
  • Shopping Aldeota (Fortaleza)
    Funcionamento: segunda a sábado, das 10h às 21h.
  • Aeroporto Internacional de Fortaleza – Pinto Martins
    Área de embarque e desembarque | Funcionamento diário, das 8h às 19h.
  • Aeroporto Internacional de Fortaleza – Pinto Martins
    Área de embarque e desembarque | Funcionamento diário, das 8h às 19h.
  • Arena Romeirão (Juazeiro do Norte)
  • Centro Multifuncional de Juazeiro (Juazeiro do Norte)
  • Shopping Alphaville Barueri (São Paulo)
Loja online

A CeArt também possui plataforma digital, onde é possível comprar produtos de artesãs e artesãos de todo o Ceará:
http://www.lojaceart.online
 
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